10 de novembro de 2016

RESENHA | Noite na Taverna — Álvares de Azevedo

Título: Noite na Taverna 
Autor: Álvares de Azevedo
Editora: L&PM
Páginas: 90
Lançamento: 1998
Onde comprar: Buscapé

Sinopse:

Nos contos reunidos em Noite na Taverna, os personagens, transtornados pelo vinho, amaldiçoam todos os princípios humanos para narrar fatos estranhos de seu passado. Os relatos constituem uma torrente de sentimentos e loucuras que nos remetem às mais arrebatadoras tragédias de Shakespeare.

Opinião:

Escrevendo o post Clássicos Nacionais de Terror, Suspense e Mistério lembrei-me de um livro que conheci numa aula de literatura ainda nos tempos de escola, e como eu nunca havia lido ele, achei que seria um ótimo livro para iniciar essa jornada pelas páginas sombrias da literatura brasileira clássica: Noite na Taverna de Álvares de Azevedo. Um livro marcado pelo alcunhado "mal do século", que possui elementos ligados ao pessimismo, satanismo e um fascínio pela morte.

Noite na taverna é um livro bastante curto, dependendo da edição ele chega a ter por volta de umas cem páginas, nas quais nos são narrados alguns relatos trágicos e por vezes macabros, sempre regados a vícios, crimes e sexo.

O livro é divido em sete partes: um prólogo, onde nos são apresentados os personagens e onde conhecemos o cenário e o ambiente onde eles estão reunidos; depois temos cinco capítulos, cada qual com o nome do personagem que irá contar seu relato; e no final um capítulo para fechar essa noite na taverna. Certamente não irei contar a história, mas vou comentar um pouco sobre o que lhes espera, tentar instiga-los a conhecer essa preciosidade da nossa literatura.
“[...] Minha história? escutai: o passado é um túmulo! Perguntai ao sepulcro a história do cadáver cujo guarda o segredo... e ele dir-vos-a apenas que tem no seio um corpo que se corrompe! lereis sobre a lousa um nome — e não mais!”
Tudo começa numa taverna... Numa noite qualquer, um grupo de amigos se reúne para jogar conversa fora e claro, beber até cair. Já bêbados, eles conversam sobre religião, filosofia, mulheres, vinho etc. e por fim um deles diz que vai lhes contar uma lembrança do passado.

Solfieri conta que depois de uma orgia e de muitas taças de vinho ele caminhava pelas ruas desertas de Roma, e quando percebeu, estava na porta de uma igreja. Entrando, encontra uma mulher sendo velada, toma ela em seus braços e a leva embora. Quais eram as suas intenções? Só lendo para descobrir...
“As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados... Era uma defunta! ... e aqueles traços todos me lembraram uma ideia perdida... — Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo...”
A cada conto terminado, voltamos ao ambiente da taverna, numa espécie de interlúdio, e um outro personagem conta sua história. Bertram divaga bastante em seu relato, acredito que devido a quantidade de álcool em seu corpo, ele começa contando sobre seu amor não correspondido com Ângela, a qual depois de muito tempo ele reencontra, voltam a ficar juntos e isso culmina num final trágico. Ele conta uma outra história de sua vida desgraçada e por fim narra uma aventura pelos mares revoltos da costa italiana, que tem início quando ele tentava se suicidar a beira-mar e um marinheiro pergunta se ele quer seguir a bordo em seu navio. Os três relatos dele são marcados por tragédias, e esse último é uma aventura bastante interessante, vale a pena conferir!

“Parece que a morte no oceano é terrível para os outros homens: quando o sangue lhes salpica as faces, lhes ensopa as mãos, correm a morte como um rio ao mar, como a cascavel ao fogo. Mas assim... no deserto das águas... eles temem-na, tremem diante da caveira fria da morte!”
A terceira história é de Gennaro, traição é a palavra que define seus relatos, ele era um aprendiz de um velho pintor italiano, chamado Godofredo Walsh, mas após se aventurar com as mulheres erradas ele acaba sendo descoberto. Quais serão as consequências dessa traição? Muita coisa vai rolar...
“[...] ...se houvesse um castigo pior que a morte, eu te daria. Olha esse despenhadeiro! É medonho! se o visses de dia, teus olhos se escureceriam e aí rolarias talvez de vertigem! É um túmulo seguro; e guardará o segredo, como um peito o punhal. Só os corvos irão lá ver-te, só os corvos e os vermes. E pois, se tens ainda no coração maldito um remorso, reza tua última oração: mas seja breve. O algoz espera a vítima, a hiena tem fome de cadáver…”
Em seguida, todos na taverna pedem para Claudius Hermann contar sua história. Ele diz que, ao contrário dos demais, não vai contar lendas, mas sim algo real, com isso começa sua narrativa dizendo que já foi muito rico, e que numa corrida de cavalos ele se apaixonou por Eleonora, uma duquesa. Tempos depois, quando lhe surge a chance, enquanto todos dormem no castelo, ele droga a duquesa e a rapta. Essa história de sequestro vai longe, e tem um “final” muito curioso. Hehe

“A natureza corava ao primeiro beijo do sol, como branca donzela ao primeiro beijo do noivo: não como amante afanada de noite voluptuosa como a pintou o paganismo, antes como virgem acordada do sono infantil, meio ajoelhada ante Deus, que ora e murmura suas orações balsâmicas ao céu que se azula, à terra que cintila, às águas que se douram.”
Por fim, Johann relata um desentendimento que ocorreu em Paris, num jogo de bilhar. Após perder um jogo, ele parte para cima de Arthur, o outro jogador. O homem o desafia a um duelo, no qual cada um escolheria uma pistola, uma delas estaria carregada, e eles teriam de atirar a queima-roupa, resultando na morte de um deles. O morto havia deixado uma carta, e quando Johann parte em busca de seu remetente, certas coisas acontecem...
“Dois gemidos sufocaram-se no estrondo do baque de um corpo...
A lâmpada apagou-se.”
Depois de todos contarem suas emblemáticas histórias (se são reais ou apenas delírios provenientes do álcool, cabe a cada leitor interpretar), o último capítulo é reservado para concluir a noite, voltamos ao cenário da taverna e testemunhamos mais um acontecimento insano, mais sangue vai rolar...

Noite na Taverna proporciona uma viagem sombria pelo mórbido e melancólico século XIX. A linguagem do texto não é tão simples, é utilizado um português arcaico em sua construção, mas o contexto e a trama são tão envolventes que você acaba não tendo tanta dificuldade na leitura. Vale a pena ler cada página do livro com muita atenção e cuidado, pois certas coisas não são tão explícitas, carecem de uma interpretação das entrelinhas. O livro possui contos verdadeiramente macabros e com temas bastante pesados, como assassinatos, incesto, necrofilia, antropofagia (canibalismo) etc., mas como eu disse, muitas dessas coisas estão escondidas, ou escritas por meio de outras palavras. O livro vai te surpreender, nada é o que parece ser, super recomendo, avalio em
Sobre o autor:

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852), escritor e poeta romântico, foi em tudo coerente com a arrebatada opção estética (o romantismo) que fez: genial, culto, precoce, construiu uma obra pequena, porém clássica, dentro da língua portuguesa e morreu de tuberculose aos vinte e um anos incompletos. Aos 10 anos já falava inglês, francês e latim. Cursou a faculdade de Direito em São Paulo e teve praticamente toda a sua obra publicada após a sua morte. Como escritor brilhante que foi e poeta original e talentoso, a qualidade da sua obra surpreende pela precocidade com que foi concebida. Discípulo dos românticos europeus, como Byron, Hoffmann e Shelley, seus textos refletem o ambiente de sua época, onde a literatura estava impregnada de pessimismo, ceticismo, morbidez e pressentimento da morte.

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